Galeria de Arte Le Varlet – Genebra

A Galerie Le Varlet ocupava um imóvel solene do século XVIII, de quatro andares e fachada clara de linhas barrocas, que sobressaía quase no centro da place de la Fusterie, praticamente tomada por prédios modernos. Quatro vitrines ladeavam o portal de entrada, sendo que três delas ostentavam painéis com desenhos dos rostos de alguns artistas presentes à mostra como Cézanne, Braque, Magritte, Kandinsky e Miró. Na outra, repousava solitária uma pintura a óleo do barão Von Kessel, retratando‑o altivo e sorridente, de pé com a mão direita pousada no espaldar dourado de uma cadeira alta. (…)


Araci e Bartô entraram na galeria por um resplandecente vestíbulo de piso de mármore claro e paredes revestidas nas bordas de mármore rosa, onde duas lindas moças de terninho recolhiam os convites e distribuíam os catálogos com o roteiro da exposição. O único móvel ali era um aparador francês do século XIX, acima do qual reluzia, presa à parede, uma placa de bronze comemorativa à inauguração da galeria. Do vestíbulo passava‑se diretamente ao luxuoso salão principal do térreo, um delírio para olhares sensíveis.  Colunas cilíndricas de mármore rosa erguiam‑se do piso de mármore rosso com detalhes em ônix, enfileiradas do portal do vestíbulo até a escadaria que, por sinal, era uma atração à parte: seus degraus em mármore e corrimões trabalhados em ferro forjado e banhados a ouro faziam dela uma indiscutível obra de arte. (…)

Um grande burburinho ressonava no ambiente. As fragrâncias parisienses juntavam‑se ao cheiro de fumo queimado de quem até há poucos instantes estava com um cigarro ou um charuto na mão. O tilintar do cristal dos copos de uísque e vodca, taças de vinho tinto e flûtes de champanhe somava‑se ao som difuso do falatório dos convidados, entremeado por risos e cumprimentos cordiais. (…)

Trecho de O VÉU em que os protagonistas Araci Quintanilha e Bartô Saraiva chegam à inauguração da mostra da Coleção Von Kessel, numa galeria em Genebra.

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Araci Quintanilha em Genebra

Era a entrada do verão. Genebra estava divina, emoldurada por um céu azul-turquesa límpido e arrebatador. A cidade reluzia em todo seu discreto esplendor, alegre, radiosa, trepidante e ostentando uma atmosfera de celebração pela chegada da bela estação. (…)

Quieta ao lado de Bartô no banco traseiro da Mercedes-Benz alugada, Araci contemplava as bandeiras tremulando ao sabor do vento de 18ºC dos dois lados da ponte du Mont-Blanc sobre o rio Ródano, enquanto o motorista, cortês e poliglota, guiava o carro com elegância em direção à galeria de Ulrich Wachtel, situada na movimentada Place de la Fusterie. Faltava pouco para as dezenove horas, mas ainda era dia claro. Araci mal conseguia acreditar que estava na Suíça, a salvo dos terroristas que a ameaçavam no Rio de Janeiro e, o que era mais impressionante, a poucos minutos de desvendar o esplendor da Coleção Von Kessel. (…)

Trecho da primeira cena em Genebra (Suíça), dos protagonistas Araci Quintanilha e Bartô Saraiva,  na abertura da terceira parte de  O VÉU.

Entrevista de Luis Eduardo Matta para a Fada dos Livros

O blog literário Fada dos Livros, sediado no Japão,  acaba de publicar uma entrevista com Luis Eduardo Matta. Entre os assuntos abordados, como o processo de criação literária, as dificuldades de publicar um livro no Brasil, literatura juvenil e o thriller O VÉU. Segue um trecho:

FADA DOS LIVROS – No seu livro “O Véu”, você faz uma descrição rica em detalhes sobre obras de artes e a arquitetura e decoração dos ambientes. Esse outro tipo de arte te encanta também?

LUIS EDUARDO MATTA – Praticamente todo tipo de arte me encanta. Na realidade, eu procuro recriar a realidade nas minhas histórias e, então, me esforço para aprender sobre lugares e estilos a fim de reproduzi-los adequadamente. Um escritor na minha linha não pode se dar o luxo de ter preconceitos e deve pesquisar sobre tudo. Inclusive, decoração, arte, moda, etc.

A íntegra da entrevista pode ser lida diretamente neste endereço.

E quem quiser conferir a resenha que a Fada dos Livros escreveu sobre O VÉU, é só clicar aqui.

Leituras da História entrevista Luis Eduardo Matta

A edição 31 da revista Leituras da História, que chegou às bancas no dia 20 de junho de 2010, traz uma entrevista de Luis Eduardo Matta dada ao escritor e jornalista Sérgio Pereira Couto. A conversa abordou vários temas, como religião, terrorismo, geopolítica e literatura, com destaque para o thriller O VÉU. Eis um trecho:

LDH – Qual a sua opinião sobre a questão do terrorismo islâmico e suas repercussões na história contemporânea?
LEM
– O terrorismo não é islâmico. O terrorismo é obra de pessoas desequilibradas que usam o islamismo para referendar e dar sentido à sua loucura. Os textos religiosos – todos eles – até pela sua subjetividade, estão sujeitos às mais diversas interpretações. Acredito que é cedo para avaliar a extensão dos estragos que essas ações causaram no mundo, já que se trata de algo relativamente recente no nosso contexto histórico: sua difusão acentuou-se somente a partir da década de 1970.

A íntegra da entrevista está disponível na página da revista que pode ser acessada neste endereço.

A Casa Quintanilha de Leilões – Rio de Janeiro

Em agosto de 1999, com o esboço de O VÉU razoavelmente estruturado e as primeiras pesquisas já em andamento, sai às ruas do Rio de Janeiro a fim de encontrar os cenários que eu imaginara para a trama. Foram duas semanas de andanças. Minha principal preocupação – comum a todos os meus livros – era fazer com que a história parecesse o mais real possível. Logo, os cenários precisariam estar fortemente conectados à realidade. Foi quando, numa tarde perambulando por Botafogo, encontrei no final da rua São Clemente, quase na divisa entre Botafogo e Humaitá, o casarão ideal para abrigar a Casa Quintanilha de Leilões, o cenário mais emblemático de O VÉU.

A casa estava desocupada e seu abandono era visível, embora não lhe ofuscasse a opulência. Havia, na entrada, uma placa de “aluga-se”, o que era um bom sinal, já que se a casa estivesse à venda correria o risco de ser demolida, o que em nada interessava ao meu projeto. Alguns dias depois, voltei ao local munido de um caderno pequeno e de uma caneta, para anotar todos os detalhes arquitetônicos e tentar reproduzir em palavras a atmosfera da área. Ao chegar, um senhor varria as folhas da calçada em frente. Era uma oportunidade de ouro. Apresentei-me a ele, disse que estava interessado em alugar a casa e perguntei se poderia conhecê-la por dentro. Ele era uma espécie de caseiro, contratado para manter o jardim relativamente limpo, vigiar e impedir invasões e, com amabilidade, interrompeu seu trabalho para me mostrar a casa por dentro e por fora. A ruína estava por todos os lados. Boa parte da madeira e do reboco havia sido devorada por cupins e o cheiro de mofo em praticamente todos os cômodos era asfixiante. Quem quer que se animasse a alugar o imóvel teria de gastar uma fortuna em reformas e talvez por isso ele tenha demorado tanto tempo para, enfim, encontrar um locatário – o que só aconteceu, se não me falha a memória, em 2005.

Terminada a visita, lembro-me de ter saído a pé pela São Clemente anotando freneticamente no caderninho tudo o que eu havia visto e, o mais importante, de ter rabiscado uma planta do casarão, adaptando a ele o que eu havia imaginado para a casa de leilões do livro. Não custa lembrar que, na época – segundo semestre de 1999 – estávamos já às voltas com as celebrações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, que aconteceria, oficialmente, em abril do ano seguinte. Era, inegavelmente, o assunto do momento e entre os que achavam que havia, sim, o que comemorar, apesar de todos os problemas, estava eu. A iniciativa de decorar a Casa Quintanilha com elementos que enalteciam as cores e a simbologia nacionais foi uma consequência direta desse espírito. Não sei se eu teria tido a mesma ideia, caso houvesse começado o livro dois anos antes ou dois anos depois. O certo é que funcionou e, mais ainda, tornou-se um dos aspectos mais apreciados da ambientação da trama. De cada cinco e-mails que recebo com comentários ao livro, pelo menos um menciona  o interior “ufanista” da Casa Quintanilha.

Por essa razão, decidimos publicar esse post dedicado à Casa Quintanilha de Leilões, reproduzindo trechos de O VÉU em que ela é descrita, acompanhadas de imagens do casarão na vida real e de como ele seria caso ali, de fato, vivesse uma família devotada ao comércio e à divulgação da arte brasileira.

Luis Eduardo Matta


(…) O magnífico palacete em estilo neoclássico europeu que abrigava a Casa Quintanilha possuía mil e seiscentos metros quadrados distribuídos em dois andares. Sua decoração era inspirada numa visão romântica e mitificada da gênese brasileira, representada por elementos folclóricos que enalteciam o exotismo, a exuberância tropical e as riquezas naturais do país. A começar pelo símbolo da empresa, reproduzido numa ostentosa estatueta de bronze, isolada sobre um pedestal de mármore no vestíbulo da entrada: um indígena de cocar, agachado, de perfil e com um arco e flecha em uma das mãos.

A alegoria também compunha — ainda que oferecendo uma perspectiva bastante inusitada para a caracterização de um silvícola — um amplo e colorido vitral art nouveau de seis metros de comprimento por cinco de altura no fundo do grande salão, onde era montada a tribuna de jacarandá da qual Araci Quintanilha comandava os pregões. O vitral retratava com requinte uma mulher de pele clara e feições ibéricas, envergando uma veste branca e um cocar de penas amarelas, sentada soberana num trono de mármore, com a mão direita pousada sobre um globo, rodeada pela mata tropical e por exemplares da fauna brasileira, como o tucano, a arara e o jacaré do Pantanal. Encomendado por Emílio Quintanilha, amante da cultura indígena, a um grupo de jovens estudantes da Academia Nacional de Belas Artes, por diversas vezes, esteve no cerne de debates afiados entre críticos de arte e frequentadores dos leilões. Os admiradores da obra costumavam ressaltar sua “vibrante simbologia”, enquanto os detratores, em maior número, torciam-lhe solenemente o nariz, abismados com sua exagerada profusão de cores, seu traçado “inegavelmente naïf” e, principalmente, sua temática, que muitos desqualificavam como “patriotada brega”, “pajelança ridícula” e outros impropérios. Os mais ferozes estendiam as críticas à própria família Quintanilha, sobretudo depois que Araci, no começo de 2004, comandou um leilão vestindo um terninho verde-escuro e com uma echarpe amarela cingindo os ombros. Uma colunista social tachou-a maldosamente de “leiloeira canarinho”, apelido que ainda hoje era pronunciado, sempre pelas suas costas e em tom pejorativo.

Por todo o casarão, o piso de marchetaria exibia mosaicos com uma ampla variedade de madeiras nativas da Amazônia e da Mata Atlântica, como o mogno, que também estava presente nos lambris que revestiam as paredes, nos rodapés e nos batentes e alisares das portas. A mobília, clássica e pesada, era composta, na maioria, por peças dos séculos XVIII e XIX. Os tapetes revezavam-se entre persas e arraiolos e seis vistosos lustres em alabastro com pingentes de cristal compunham o teto. Nos cômodos ao redor do grande salão, pesadas cortinas de veludo verde-musgo, encimadas por bandôs amarelos ornavam as altas janelas de pinho-de-riga. Antúrios e costelas-de-adão de folhas largas e escuras brotavam de dois belos cachepôs de porcelana pintados com motivos tropicalistas, cada qual colocado a um lado do portal que dava acesso ao salão(…).

Edney Silvestre entrevista Luis Eduardo Matta no Espaço Aberto Literatura

Luis Eduardo Matta (à esq.) foi um dos entrevistados de Edney Silvestre, no Espaço Aberto Literatura de 19 de fevereiro de 2010, na GloboNews. Entre os assuntos abordados, literatura de entretenimento e o thriller no Brasil. Matta discorreu, ainda, sobre o seu sétimo livro, O VÉU – um thriller de mistério, publicado pela Primavera Editorial, no qual os bastidores do rico mercado de arte se cruzam com as sórdidas entranhas da turbulenta política do Irã. Felipe Pena, jornalista, professor da Universidade Federal Fluminense, doutor em literatura pela PUC-Rio e pós-doutor em semiologia pela Sorbonne, também participou do descontraído bate-papo com Edney Silvestre, gravado na Livraria da Travessa do Leblon, no Rio de Janeiro.

Em O VÉU, a narrativa eletrizante de Luis Eduardo Matta leva o leitor a “cenários” distintos como Rio de Janeiro, Teerã e Genebra. O ponto de partida é o leilão, no Brasil, de uma misteriosa tela a óleo, chamada “O Véu”. Condenado por lideranças muçulmanas por retratar uma mulher seminua usando o véu islâmico, o quadro tem uma trajetória marcada por sucesso, polêmica, intriga e tragédia. Diversas pessoas tiveram a morte associada à obra – inclusive o pintor, Lourenço Monte Mor. Resultado de minuciosa pesquisa sobre o Irã e o mercado de arte, O VÉU é uma obra atual, que transpôs para a ficção a história recente de um país marcado pela polêmica. O autor, inclusive, aborda as eleições presidenciais iranianas realizadas em junho de 2009.

A cada edição, o Espaço Aberto Literatura recebe nomes consagrados e novos talentos da literatura nacional e estrangeira; um espaço nobre que reúne escritores, poetas, ensaístas e tradutores.

A entrevista está disponível no site da Globonews. Para assistir, é só clicar aqui.

A arte contemporânea refém da insensatez

LUIS EDUARDO MATTA

Artigo originalmente publicado no Digestivo Cultural, em 16 de maio de 2008

Entre as vantagens de se reproduzir passagens de um trabalho literário de nossa própria autoria, a mais óbvia é a dispensa de solicitar uma autorização que, muitas vezes, não é dada. Uma outra, igualmente relevante, é a tranqüilidade de saber que o autor ou seus herdeiros não nos procurarão enfurecidos, escoltados por uma tropa de advogados, acusando-nos de haver usado o texto de forma indevida, para ilustrar uma argumentação indecorosa ou infame. No terreno das desvantagens, a maior delas talvez seja a de soar vaidoso e presunçoso. Juro que não foi o meu propósito ao transcrever os parágrafos a seguir:

(…)Araci Quintanilha fitou o homem demoradamente. Aquela afirmação soara irônica além da conta.
― Desculpe, mas não entendi o sentido do seu comentário ― ela respondeu, com a voz seca. ― Sou leiloeira há muitos anos e sempre tive uma grande alegria em trabalhar com arte. Desde que, é lógico, ela tenha qualidade estética e transmita sensibilidade.
― Não me interprete mal ― o embaixador não parecia constrangido. ― O que eu quis dizer foi que deve ser difícil trabalhar com arte nos dias de hoje, quando a produção artística é tão… duvidosa, para dizer o mínimo.
― Nem toda a produção contemporânea é duvidosa.
― É verdade ― o sarcasmo acentuou-se no rosto de Olivier de Grammont. ― Ela também pode ser perigosa.
Araci sentiu um tremor sombrio, como se um manto gelado lhe houvesse cingido o corpo. A arte realmente podia ser muito perigosa. Lembrou-se do quadro.

Aquele quadro…
Por quanto tempo mais ele lhe despertaria aquela sensação paralisante de angústia e de um medo quase infantil?(…)

Esta é uma cena do meu novo thriller, O Véu, que está praticamente pronto desde o ano passado. Se ele não foi publicado ainda, isso se deve, fundamentalmente, a duas razões: a principal delas é que, nos últimos dois anos, eu tenho dedicado mais tempo à minha literatura juvenil. Lancei um livro nesta linha em 2007, estou publicando outro neste primeiro semestre de 2008, acabo de concluir um terceiro, estou iniciando um quarto e, como tenho por norma participar ativamente de cada novo lançamento, achei por bem não publicar mais de um livro ao mesmo tempo, uma vez que isso tumultuaria enormemente o meu já sobrecarregado dia-a-dia. A segunda razão está relacionada ao próprio livro. A ação de O Véu transcorre ao longo do mês de junho de 2009 e tem como um dos cenários o Irã, que realizará eleições presidenciais, justamente em… junho de 2009. Os dias exatos das duas rodadas eleitorais, no entanto, não foram ainda fixados e eu estou apenas no aguardo da chegada de um informe de Teerã confirmando as datas e a listagem dos principais prováveis candidatos, para poder inserir as informações no livro e, enfim, dá-lo por finalizado.

O plano de fundo principal de O Véu é o mundo das artes plásticas. O livro teve três versões até a sua (quase) conclusão no ano passado: a primeira foi escrita entre setembro de 1999 e abril de 2001; a segunda, entre dezembro de 2004 e abril de 2006; e a terceira (na verdade, uma reformulação e ampliação da segunda), entre janeiro e maio de 2007, meses que passei praticamente recluso. As pesquisas para desenvolvê-lo foram as mais extensas que já realizei até hoje para um romance, e todo o material reunido ao longo desses quase oito anos constituem, provavelmente, uma das maiores seções dos meus arquivos particulares. Nele, há, desde um exemplar da constituição iraniana, até catálogos de galerias, leilões e exposições no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Europa e no Irã (sim, existe vida cultural no Irã. Acessem o site Tehran Avenue e vejam uma pequena amostra). Sempre gostei de arte e, durante anos, contei com a orientação de um tio leiloeiro, José Kanan Matta, com quem conversava muito sobre o assunto. A partir do momento em que esbocei as primeiras linhas de O Véu, contudo, as minhas impressões sobre a arte e, mais particularmente sobre a arte produzida hoje, mudaram bastante e eu passei a ter uma visão bastante ampla e não muito animadora de como se movimentam as engrenagens desse mundo que, de glamoroso, tem quase que somente a fachada.

O diálogo reproduzido mais acima se dá entre uma leiloeira e marchande brasileira e um diplomata francês. Ambos estão presentes no coquetel de inauguração de uma mostra que reúne pinturas de artistas célebres do século XX, como Matisse, Derain, Léger e Picasso, e fazem uma comparação entre a arte consagrada por esses grandes nomes e a arte produzida mais recentemente. Não há como negar que o abismo existente entre ambas é brutal e torna-se ainda mais assustador, se o paralelo for feito com artistas barrocos como Caravaggio, Velázquez e Vermeer e renascentistas, como Rafael, Michelangelo e Leonardo Da Vinci, isso sem falar nos impressionistas, românticos, neoclassicistas etc.

Não quero dizer, com isso, que não existam pintores, desenhistas, gravuristas e escultores talentosos em atividade. Eles existem sim, e em bom número. O que ocorre é que, por se dedicarem, muitas vezes, a estilos que priorizam uma figuração, digamos, mais tradicional em detrimento de experimentações estéticas e conceituais débeis e extravagantes, acabam sendo relegados pela crítica especializada à condição de artistas menores, não conseguem bons espaços para expor e, conseqüentemente, não têm a sua obra devidamente analisada e difundida. Por outro lado, abundam nas galerias e grandes salões e bienais de arte, trabalhos pseudovanguardistas, medonhos e equivocados, que vão de instalações grotescas (algumas chegam a ser aterrorizantes) a montagens pueris ou de mau-gosto que, em vez de por a nu a escassez de talento e de sensibilidade de seus autores, ostentam, inexplicavelmente, uma falsa pátina de inteligência e renovação, que, não raro, deixa os espectadores aturdidos e reféns da incompreensão e da perplexidade ― quando não da repulsa.

Assim como muita gente, já tive a chance de testemunhar inúmeros casos que ilustram essa realidade. Um bom exemplo foi uma mostra de um artista plástico e poeta catalão chamado Joan Brossa, que visitei, há uns dois ou três anos, com meu amigo e compadre Daniel Malaguti, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Eu me recordo que uma das primeiras peças que vimos foi uma escada de montar ― dessas feitas de ferro ou alumínio, com cinco ou seis degraus. Ingenuamente, pensamos que ela havia sido esquecida ali por algum funcionário da manutenção do museu, mas um segurança logo esclareceu que ela fazia parte da mostra e apontou para o chão. Vimos, então, que cada um dos quatro pés da escada estava apoiado num carrinho de brinquedo. Apesar do espanto, aquilo não foi exatamente uma surpresa, pois eu, Daniel e Ram Rajagopal já perdemos a conta das roubadas em que nos metemos no circuito cultural. Uma das mais notórias foi a mostra de um artista, do qual não me lembro o nome (se é que cheguei a registrá-lo), cujo um dos trabalhos nada mais era do que um copo comum de vidro, vazio. Quer dizer: o sujeito, num lance de pretensa genialidade, apanhou um copo na sua cozinha e colocou-o, na cara dura, sobre um expositor. Não tenho certeza, mas até onde me lembro, havia a intenção de transmitir uma mensagem qualquer com aquele “Copo cheio de ar” (acho que era esse o nome da obra). Talvez uma alusão à própria caixa craniana do artista que, no lugar de um cérebro, conteria apenas ar.

Em 2004, correu o mundo a notícia de que uma faxineira do Museu Tate Britain, em Londres, havia jogado fora, por engano, um saco de lixo que integrava uma instalação de Gustav Metzger, artista alemão radicado na Inglaterra que criou, em 1959, um troço pavoroso que ficou conhecido como o movimento da Arte Autodestrutiva. Ao que parece, a “obra de arte” foi recuperada pelo museu, mas eu, caso fosse o diretor do Tate Britain, teria premiado a faxineira, promovendo-a a curadora do museu, uma vez que ela provou ser grande conhecedora de arte. Mais recentemente, um delinqüente costarriquenho chamado Guillermo “Habacuc” Vargas, exibiu, num evento na América Central, uma instalação que consistia num cachorro de rua faminto e doente amarrado a uma corda. O animal, supostamente, teria morrido de inanição ou de alguma moléstia decorrente da falta de tratamento veterinário. A crueldade do ato já é uma aberração em si, mas igualmente chocantes foram as justificativas apresentadas pelo “artista”: ele alegou que sua intenção havia sido a de homenagear um nicaragüense morto dois anos antes por cães numa cidade da Costa Rica e, de quebra, acusou de hipócritas todos aqueles que protestaram contra ele, pois “ninguém ligaria se o cachorro estivesse passando fome nas ruas”. Se o pensamento de Habacuc tiver lógica, é provável que, numa exposição futura, ele prenda uma pessoa num pau-de-arara e coloque alguém ao lado para surrá-la e dar-lhe choques elétricos, como uma forma de protesto por todas as torturas praticadas pelas ditaduras latino-americanas.

O urinol de Marcel Duchamp

A origem dessa barafunda em que se transformou a arte nos dias de hoje atende pelo nome de Marcel Duchamp, artista que, em 1917, expôs um urinol de louça num salão em Nova York para protestar contra o conservadorismo acadêmico. Tido como um marco do movimento Dada, o urinol de Duchamp deflagrou um processo desgovernado de desconstrução e relativização do conceito de arte, a ponto de, hoje, qualquer coisa ― até um cão morrendo de fome ― poder ser considerada obra de expressão artística, já que os critérios de avaliação de um trabalho tornaram-se caóticos, ilógicos e disparatados. Quem quer que reaja a essa tese é acusado de reacionário, antiquado, elitista e, muitas vezes, ignorante e alienado. Pessoalmente, acredito que, ao expor o urinol numa época como a década de 1910, Duchamp pretendeu, acima de tudo, fazer uma provocação em tom de galhofa ao establishment de então. Gosto de imaginar que James Joyce teve intenção semelhante ao escrever e publicar Ulisses, embora muita gente considere essa opinião uma heresia maior do que, por exemplo, expor ― como fez o inglês Chris Ofili, numa coletiva em 1999 ―, uma pintura da Virgem Maria salpicada de excremento de elefante. Caso estivesse vivo, Duchamp, certamente, morreria de rir com toda a celeuma formada em torno de seu nome e, talvez, se horrorizasse ao perceber no que o seu ato de protesto resultou. O certo é que o urinol daquele revolucionário ano de 1917 alterou sensivelmente a percepção dos artistas e estudiosos em relação à arte, de modo que, a partir de dado momento, passou a prevalecer a idéia de que uma obra, para ser legitimada e atingir certo grau de credibilidade e reconhecimento, precisaria inaugurar uma estética nova que contestasse e, se possível, rompesse com as anteriores, renovando continuamente a linguagem e a forma de se pensar e produzir arte.

É preciso reconhecer, porém, que, sob esse aspecto, as artes plásticas acompanharam o calendário veloz do século XX, ao longo do qual a sociedade ocidental se renovou num ritmo e numa intensidade nunca antes vistos. Não foi diferente com a tecnologia, com a moda, com a arquitetura e, sobretudo, com os costumes. O problema é que, no caso da arte, essa busca constante pelo novo, acompanhada de uma obsessão igualmente frenética pela ruptura com modelos antigos, levou a um esgotamento. A arte viciou-se numa espécie de volúpia vanguardista e os artistas, aprisionados por conceitos estéticos e criativos limitados que, erroneamente consideram libertários, encontram-se, hoje, encurralados, aparentemente carentes de referenciais e praticando a ruptura pela ruptura, a transgressão sem um objetivo definido, numa época em que praticamente todas as normas já foram devidamente transgredidas, e na qual todos os conceitos possíveis foram postos em xeque. Ou seja, a transgressão que, em 1917 com Duchamp, teve uma função renovadora, hoje nada mais é do que uma tomada pessoal de atitude, com objetivos meramente mercadológicos ou de culto à própria imagem. As chamadas “anti-arte” e “não-arte”, que tinham uma proposta contestadora, transformaram-se em arte convencional exibida, hoje, nos grandes museus, assim como a contracultura foi absorvida pela cultura de massa. Não custa relembrar a celebração, em 1999, dos trinta anos do mítico Festival de Woodstock, que contou com o patrocínio de várias corporações, sinalizando, assim, a sua plena incorporação à sociedade de consumo tão apaixonadamente criticada pelos idealistas de inspiração hippie que compareceram à edição original do evento, em 1969.

Algumas pessoas que discordam do meu ponto de vista, já me acusaram de torcer o nariz para o “contemporâneo” e o experimental, o que não é verdade. A modernidade é extraordinária e a experimentação é importantíssima em qualquer segmento cultural, mas há que existir certos ajuizamentos. O próprio conceito de contemporaneidade é perigoso, uma vez que aquilo que é moderno hoje envelhecerá em algum momento. Isto é: caso a única virtude de uma obra seja a sua modernidade, quando surgir algo ainda mais moderno, ela correrá grande risco de perder todo o seu valor. A contemporaneidade não pode, de forma alguma, ser tratada como um estilo. É preciso que o caráter moderno de um trabalho venha acompanhado de outros elementos, que haja uma preocupação, também, com a qualidade, a sensibilidade, o conteúdo, o talento e o bom-senso. Tudo isso anda em falta e é por essa razão que uma instalação de Cildo Meireles acaba obtendo mais visibilidade do que uma pintura de Pietrina Checcacci.

Num mundo onde a transgressão tornou-se norma estabelecida coletivamente, talvez a única subversão possível nas artes plásticas seja o elogio à “caretice” figurativa. Em O Véu um pintor é assassinado depois de expor um quadro com uma mulher muçulmana seminua. Embora talentoso, ele precisou usar contatos familiares dentro do mercado de arte para atingir uma projeção que teria sido improvável de outra forma, já que suas telas eram claramente figurativas e emulavam estilos pictóricos de épocas pretéritas. As autoridades islâmicas que denunciaram a pintura como ofensiva e vilipendiosa, só o fizeram porque captaram, de imediato, o que ela representava. Não foi necessário ouvir a explanação verbosa e intrincada de um crítico ou do próprio pintor explicando o seu significado e a inteligente e engajada mensagem que trazia nas entrelinhas. Caso o artista, em vez de uma pintura com traçado tradicional, houvesse optado por montar uma instalação, talvez jamais atraísse para si tanta polêmica. E o diálogo do início deste artigo, entre a atordoada leiloeira brasileira em rota de fuga por conta de uma ameaça de morte e o diplomata francês, cuja presença na exposição não se deveu apenas ao seu gosto pelos mestres do século XX, não teria acontecido. Uma coisa, porém, eu garanto: na galeria onde tem lugar a cena, os urinóis encontram-se apenas nos banheiros, bem presos às paredes e desempenhando unicamente a função para a qual foram concebidos. Quem sabe, ao fazer o seu protesto, em 1917, Marcel Duchamp não estivesse, na verdade, sendo visionário e criando uma metáfora do destino que boa parte da arte produzida sob inspiração dele deveria ter? Muito embora eu considerasse a lixeira uma alegoria ainda mais apropriada.

Em tempo
Soube, recentemente, que um quadro de Lucian Freud, que considero um dos grandes artistas vivos, foi arrematado num leilão da Christie’s, em Nova York, por mais de 30 milhões de dólares. O quadro chama-se “Benefits Supervisor Sleeping“, foi pintado em 1995 e é uma figuração. Ainda há ilhas de esperança neste mar de insensatez.

Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 16/5/2008