O Véu – Diário do Comércio

Suspense brasileiro. Se Hitchcock lesse…

Renato Pompeu

Aos 35 anos, o escritor carioca Luis Eduardo Matta já tem uma experiência de 17 anos como autor de livros de suspense, gênero no qual ele é pioneiro no Brasil. Seu recém-lançado romance O Véu, publicado pela Primavera Editorial – que “adota como proposta associar a leitura ao lazer qualificado” – mostra a desenvoltura que Matta conseguiu para o seu projeto de criar “um thriller genuinamente brasileiro”. Com efeito, se trata de uma obra que pouco fica a dever aos melhores mestres internacionais do gênero e, não fosse por pequenas falhas, já estaria pronta para ser filmada à la Hitchcock. Do início ao fim, o leitor fica preso à leitura, ansioso para saber o que vai acontecer em seguida, ou qual revelação vai ser feita no próximo parágrafo.

Trata-se de uma história atraente enredada em uma trama que envolve o terrorismo internacional e o mundo brasileiro e internacional do mercado de artes plásticas, dois temas bastante populares entre os grandes públicos de ficção. Um pintor brasileiro cria um quadro que mostra uma mulher nua exceto por um véu que lhe cobre o rosto, o que desencadeia uma série de atos terroristas, presumivelmente por parte de islamitas intransigentes.

O centro do enredo é uma tradicional casa de leilões do Rio de Janeiro, cuja dona é tia do pintor do quadro, e o fator desencadeante é o leilão em que a obra vai ser posta em hasta.

Essa trama geral permite a Matta desenvolver temas de agrado do grande público, como as intrigas internacionais de terrorismo e espionagem em várias regiões do mundo, a repressão política em países como o Irã. Permite, também, ao autor explorar outros temas atraentes, como os bastidores tortuosos do mundo das artes plástica, com suas distorções em que obras autênticas de grande arte são desprestigiadas, enquanto obras sem maior valor artístico são postas nas nuvens. Os conluios entre marchands, donos de galerias, leiloeiros, curadores, editores e críticos de arte são postos a nu nas suas tramas de interesses obscuros, de contrafações e de simulacros.

Além disso, a mistura de mercado de arte com atentados terroristas permite ao autor descrever ambientes de luxo e beleza, decorações altamente elaboradas, obras de arte e de artesanato de extremo requinte, assim como fazer desfilar nas mesas refeições de gosto exótico e bebidas exclusivas para consumidores refinados.

A par dessas atrações, o livro conta acima de tudo com o desenrolar fascinante da trama, em que as surpresas vão se sucedendo quase de parágrafo em parágrafo. Para essas sensações quase hipnóticas, contribui o texto muito bem elaborado pelo autor, com um ritmo e um vocabulário que prendem o leitor e ao mesmo tempo, de maneira bem clara e didática, lições de arte e bom gosto e lições igualmente sobre os dramas internacionais contemporâneos, como os bastidores dos terrorismos e da repressão política. Não faltam os acadêmicos palestrantes e autores de livros com teses ousadas que desafiam poderes constituídos ou poderes secretos, outra grande atração para o público em geral, do mesmo modo embebida em didatismo.

As pequenas falhas são quanto à atuação da polícia carioca. Num dos atentados no Rio, aparece uma inscrição em caracteres árabes na parede do local. A polícia, surpreendentemente, não providencia a tradução da inscrição, tradução que fica por conta dos donos do local afetado e dos jornais no dia seguinte. Também a polícia não obtém mandado de prisão e não se empenha na captura de um suspeito que o delegado sabe onde mora, sabe que o suspeito se apresentou a diferentes testemunhas com nomes, profissões e nacionalidades diferentes, e foi visto no local de um atentado pouco antes de o atentado ocorrer. Apesar de todos esses indícios, vai sem escolta e sem mandado ao local onde o suspeito mora, bate à porta, não é atendido e simplesmente vai embora e deixa de se preocupar com o suspeito.

Há outras situações assim. Se o autor quis demonstrar a inépcia policial, isso não fica claro e a impressão maior que fica é que houve pequenos senões na condução da trama tão atraente e sedutora.

Resenha originalmente publicada no DIÁRIO DO COMÉRCIO em 19 de março de 2010.

Clímax

Aqui, no Grande Salão do Castelo de Jegenstorf, nas cercanias de Berna, Suíça, acontece, na reta final de O VÉU, o confronto definitivo entre a protagonista e a antagonista da trama. Na sombria madrugada, segredos terríveis, há muito guardados,  são, enfim, revelados.

Mix Cultural entrevista Luis Eduardo Matta

Luis Eduardo é um jovem e talentosíssimo autor brasileiro de ficção, com tino perfeito para tramas intrincadas e reviravoltas emocionantes. Li todas as suas obras, e é nítido sua evolução e seu crescimento como escritor. Sua última obra é “O Véu”. Suspense, atentados, situações diplomáticas, pinturas, assassinatos, segredos e adrenalina, estes são os ingredientes que tornam a obra um dos melhores livro de ficção da atualidade.

Entrevista:

Nasci no Rio de Janeiro, onde sempre morei, em novembro de 1974. Tenho, portanto, 35 anos. Lancei meu primeiro livro em 1993, aos 18 anos. Fiquei nove anos sem publicar e só retornei em 2002.

Publiquei, até o momento, os seguintes livros, entre thrillers para os públicos adulto e juvenil:
– Conexão Beirute-Teeran (1993)
– Ira Implacável: Indícios de uma Conspiração (2002)
– 120 Horas (2005)
– Morte no Colégio (2007)
– Roubo no Paço Imperial (2008)
– O Rubi do Planalto Central (2009)
– O Véu (2009)

Luis, o mercado editorial no Brasil é pequeno e bem fechado, como foi sua caminhada até este maravilhoso sucesso de sua carreira?
Bom, o “maravilhoso sucesso de sua carreira” eu vou creditar à sua gentileza e generosidade. Não alcancei esse nível ainda. O meio editorial é complicado, muito competitivo e o mercado é pequeno, como você bem frisou na sua pergunta e eu sempre enfrentei muitas dificuldades. O que me tem movido é a minha paixão pela escrita e pela literatura e muita perseverança. Sem perseverança, as coisas dificilmente acontecem. Mas eu estou longe de me considerar alguém que “já chegou lá”. Continuo, isso sim, na caminhada e devo permanecer nela por muito tempo ainda.

De onde tira inspiração para temas tão distintos e profundos?
De muitos lugares: da vida cotidiana, da arte em todas as suas manifestações e da minha curiosidade sobre diferentes assuntos. É fascinante misturar numa trama de suspense e mistério temas que, aparentemente, pouco ou nada têm em comum. É um grande desafio. Não faço uma literatura confessional. O que me atrai no ato de escrever é justamente recriar na ficção situações que eu não viveria na realidade, dar vida a personagens e jogá-los no mundo.

Como foi sua experiência para escrever para o público infantojuvenil?
Extraordinária. Foi a minha grande descoberta nesta última década. Tenho, há muito tempo, uma preocupação com a formação de leitores no Brasil. Escrever para o público juvenil foi a forma que eu encontrei para fazer a minha parte, aproveitando a experiência que eu já tinha na criação de thrillers adultos. Tem dado certo. A ficção de suspense e mistério é ótima formadora de leitores, sobretudo por duas razões: vale tanto para garotos quanto para garotas e desperta uma curiosidade direta no leitor, que quer ver esclarecido o mistério da trama, o que o estimula a mais facilmente virar as páginas rumo ao final do livro.

Quem lê suas obras percebe nitidamente sua evolução literária. Conte-nos um pouco esta trajetória.
Acho que ela reflete a minha evolução como ser humano. No sentido que, a cada ano que passa, sinto que compreendo melhor as pessoas e o mundo, aceito mais certas circunstâncias e aprendo mais sobre a multiplicidade da realidade. Por menos confessional que seja um romance, ele não deixa de ser um trabalho autoral. Foi como eu disse há pouco: continuo na minha caminhada e isso vale, também, para o meu aprendizado humano e existencial.

Luis sua mente é fascinante, você consegue dar vida ao que escreve, e isto é muito raro em nossos autores.
É uma mente que não abandonou o mundo da fantasia. A fantasia é uma característica da infância que o processo de amadurecimento tenta destruir ou, ao menos, sufocar. No meu caso isso nunca aconteceu porque a minha transição da infância para a idade adulta se deu de uma forma muito suave, natural, sem grandes rupturas. Aos 17 anos eu senti que precisava extravasar esse lado fabulador. Foi uma necessidade quase psiquiátrica (risos). Ao mesmo tempo, tenho os pés muito firmes na realidade. Procuro ver as coisas como elas são, com o mínimo possível de interferência ideológica, religiosa, etc. O que às vezes é muito difícil. Então acho que essa simbiose intensa entre fantasia e realismo é o que dá vida à minha ficção.

O Véu é uma prova maravilhosa de seu talento, como está a receptividade da obra no Brasil?
Muito boa. Tenho recebido, através do meu site, mensagens muito positivas de leitores. A vendagem também está sendo ótima. É claro que muita gente não vai gostar do livro, o que é natural e estou sempre preparado para as críticas negativas, pois sei que elas fazem parte do jogo. Mas só o fato de o romance existir e estar circulando me alegra, pois foi um livro que escrevi com grande paixão.

Suas considerações finais:
Acredito no poder positivamente transformador da leitura, até para fins utilitários. Temos um longo caminho a percorrer no Brasil neste sentido e todo o meu esforço tem sido com esse propósito. O Brasil só se desenvolverá plenamente quando tivermos uma população mais instruída, que saiba ler e interpretar textos e possa, com isso, estar habilitada a pensar e a contestar. Sei que é utópico, sei que é difícil, mas é possível. Enquanto eu achar que o thriller é um caminho para atrair pessoas para o texto escrito e para a literatura brasileira, seguirei escrevendo nesta linha. O Brasil crescerá quando os livros estiverem no coração do povão.

Entrevista concedida a Roberta Souza. Originalmente publicada no MIX CULTURAL em 24 de fevereiro de 2010.