O contraditório mosaico feminino iraniano

A professora Mitra Rahmani, de 46 anos, entrou com seu carro, um vistoso Samand azul, no campus da Universidade Shahid Beheshti, na zona norte de Teerã (…). Vestia um sóbrio conjunto de calça e blusão marrom de gabardina, que lhe cobria todo o corpo, e usava dois anéis de ouro, o metal das mulheres. A maquiagem era discreta: limitava-se a um batom muito leve, quase imperceptível, sobre os lábios. Ela ajeitou a enorme echarpe preta de seda grossa em torno do rosto, que adotara havia um bom tempo em substituição ao tradicional chador, deixando entrever algumas mechas dos brilhosos cabelos castanho-escuros (…). Levava nos braços duas pastas chatas com apostilas e programas de aula e um exemplar da revista feminina Zanan , além de dois livros, ambos edições francesas (…). Mitra sentou-se diante de um dos computadores conectados à rede e percorreu rapidamente alguns sites noticiosos iranianos a fim de saber notícias das eleições. A apuração parecia que entrara na reta final.

Neste trecho de O VÉU, somos apresentados a Mitra Rahmani, protagonista do núcleo iraniano do thriller de Luis Eduardo Matta. Mitra é uma professora universitária, culta, independente, corajosa, autônoma e apaixonada por seu trabalho. No livro, ela simboliza uma das muitas contradições que marcam o Irã contemporâneo. Desde a Revolução de 1979, quando a Sharia (a lei islâmica) passou a ser aplicada no país, as mulheres iranianas são obrigadas a cobrir a cabeça com um véu, seus depoimentos num tribunal valem a metade do de um homem, são proibidas de exercer a magistratura e as prostitutas e adúlteras podem ser punidas com o apedrejamento até a morte. Por outro lado, 60% das vagas nas universidades são ocupadas por mulheres, a força de trabalho feminina, que nos tempos pré-revolução não chegava a 15% do total, atualmente gira em torno de 30% e elas estão presentes em praticamente todas as atividades econômicas. Existem tanto mulheres na polícia, nos esportes e conduzindo ônibus nas ruas de Teerã, como no parlamento e no poder executivo.

Jovens iranianas numa lan house e uma motorista de ônibus em Teerã

Recentemente, a ginecologista, professora universitária e ex-deputada Marzieh Vahid-Dastjerdi foi nomeada pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad ministra da Saúde do novo governo, eleito no polêmico pleito de junho de 2009. É a terceira mulher a ocupar um ministério na história do Irã. Durante a administração do presidente Mohammad Khatami (1997-2005), o país contou com uma vice-presidente, a cientista Masoumeh Ebtekar. São circunstâncias impensáveis em muitos dos países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita, onde as mulheres não ocupam mais do que 5% do mercado de trabalho e onde elas são proibidas de votar, dirigir, andar de bicicleta e de manter contas individuais em bancos sauditas sem a autorização dos maridos.

A ex-vice-presidente Masoumeh Ebtekar (E) e a ministra Marzieh Vahid-Dastjerdi

Existe, hoje, no Irã uma crescente tomada de consciência por parte da sociedade visando a uma abertura do regime, ao abrandamento de regras, a mais liberdade e igualdade e as mulheres estão à frente desse movimento. Organizadas, politizadas e instruídas, elas constituem, hoje, o principal agente de mudanças no país e vêm atuando em várias frentes. Não apenas nos protestos onde tomam cada vez mais parte, como, principalmente, em pequenas, porém significativas transgressões do dia-a-dia, como deixar partes do cabelo à mostra, vestir roupas coloridas, se maquiar, se comunicar com o mundo via internet e se misturar livremente a rapazes em festas clandestinas que costumam varar noites, embaladas pelo som de ritmos ocidentais, álcool e muita sensualidade. Assim, elas vão ocupando cada vez mais espaço na sociedade e, com isso, minando aos poucos os alicerces da República Islâmica, desafiando sua ideologia e fazendo com que a opressão perca sua legitimidade e sua própria razão de existir.

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